Fetiches Modernos

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– Ô, Valdemir, sabe de uma coisa?
– Hum?
– Eu não sei se é a modernidade ou é a gente que tá ficando velho, mas tenho pra mim que realizar fetiches está cada dia mais difícil.
– Como é, Cidinha?
– É, Valdemir. Fetiches. Realizar os fetiches está cada dia mais complicado. A gente se acomoda com as coisas…
– Fetiches, Cidinha?
– Fetiches, Valdemir. Nem me olhe desse jeito. Sempre há fetiches. Só que o dia-a-dia consome a gente e a gente não pensa mais nos fetiches.
– Cidinha, quinze anos de casados. Fazia muuuuuito tempo que você não me vinha com essa história de fetiches. Foi esse livro que a Suvinil lançou que fez isso, não foi?
– Que Suvinil, que livro, Valdemir?
– Não sei, alguém me disse, eu li, sei lá, que tinha uma história de um pintor, um pincel, não sei direito, umas algemas e não sei quantos tons de tinta pra a mulher escolher e ela ficava nervosa e ele batia nela. Parece que ele trabalhava na Suvinil, ou algo do tipo. Mas ele era rico. Ou era ela que era recém formada em Administração e era gerente de uma loja de tintas. Isso não vem ao caso, Cidinha. Sei que tinha sacanagem no meio.
– Valdemir, meu amor, não tem nada a ver com o livro, nem tom de cor nenhuma. Sou uma mulher bem resolvida há muito tempo e você sabe disso.
– Sei, sim.
– Mas já há alguns anos que nós não inovamos.
– A gente comprou travesseiros novos há um mês, Cidinha.
– Valdemir, meu lindo…
– Cidinha, não tem nem três meses que trocamos a cama, compramos lençóis novos e um edredom do Taj Mahal.
– Valdemir me poupe.
– Cidinha, Taj Mahal, Kama Sutra. An? An? Se isso não for inovação, não sei mais o que é.
– Valdemir, você sabe o que é inovação, sim. Você sabe bem o que é porque todo homem sabe. Pornografia vem instalada no HD do homem desde novo. Vocês ficam mexendo no mouse desde pequenos.
– Também não é assim.
– É sim. Olha, Valdemir, a gente nunca fez no elevador.
– É verdade.
– Que tal?
– Hum…
– Não é uma boa?
– No daqui do prédio?
– Em qualquer um, Valdemir.
– Não dá. Os porteiros nos conhecem. Vão ver, vão gravar, vão botar na internet e aí lascou.
– É verdade.
– É complicado. Hoje os elevadores todos têm câmeras. E são menores, eu acho. E não são todos que vem com apoio do lado.
– Apoio do lado?
– É, Cidinha. Ajuda, né?
– Tá, Valdemir. Esquece o elevador. E na moto?
– Na moto?
– Na moto, dá? Acho que dá.
– A moto andando ou desligada?
– É claro que é na moto parada, Valdemir! Você acha que vai ser na moto ligada e andando?
– E eu que sei? O fetiche é teu!
– Na moto desligada. E parada.
– Equilibrar a moto é complicado, né? A gente vai parar no chão. E não vamos parar pra subir na moto de novo depois que tivermos caído. Vamos ficar no chão. Se é pra ficar no chão que comecemos no chão. Ou então no tapete. Mas embora seja fofinho, o tapete não é a mesma coisa que a cama. É melhor na cama. Já to me animando.
– Valdemir, a cama não é fetiche.
– A cama do Taj Mahal, Cidinha. Hein? Hein? Kama Sutra, Cidinha. Os indianos sabem das coisas.
– Valdemir, escuta. Pensa em outro lugar.
– Fora a cama?
– Fora a cama.
– Praia?
– Já fomos.
– Meio do mato?
– Há muito tempo.
– Carro?
– Valdemir, tenha paciência. No carro? A gente namorava no carro, Valdemir.
– Mas faz tempo.
– Eu quero inovação, Valdemir. I – NO – VA – ÇÃO.
– Já sei.
– O que?
– Na mesa da sala.
– Hum…
– Tipo aqueles filmes. Eu te pego no colo, boto na quina da mesa, passo as costas dos braços na mesa, derrubo tudo e te ponho em cima. E pronto.
– Agora?
– Agora.
– Espera, Valdemir. Meu laptop ta em cima da mesa. E tem o arranjo de flores que a mamãe deixou ontem.
– Cidinha, eu quero agora em cima da mesa.
– Você espera eu tirar os livros, também?
– Cidinha, eu vou varrer aquela mesa com o meu braço. Eu quero ver pedaço de arranjo no chão. Eu quero mandar o laptop para o conserto. Eu quero ver marcador de livro por todo canto. Eu quero achar pétala de flor embaixo do sofá no ano que vem do furdunço que eu quero fazer.
– Espera, Valdemir, tem os pratos, também. A mesa ta do mesmo jeito que a gente deixou depois do jantar.
– Ih…
– Vamos fazer o seguinte, amanhã eu ponho a mesa com pratos e talheres descartáveis, tiro o arranjo e deixo o laptop longe. É até bom porque não precisa nem lavar a louça depois.
– Hoje é sua vez de lavar a louça?
– É a sua.
– Depois do jogo eu lavo.
– Vou dormir.
– Bota o edredom do Taj Mahal, que eu já chego.

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5 Resultados

  1. Wendel disse:

    HAAHAHAHAHA Fantástico! =)

  2. Tatiana disse:

    Adorei!!!!

  3. GABRIEL DA SILVA MOREIRA disse:

    muito bom kmmmmmm

  4. Rômulo Rodrigues disse:

    kkkkkkkkkkkk

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